<![CDATA[Caroline Miltersteiner - Português]]>Fri, 13 Mar 2020 09:11:21 -0700Weebly<![CDATA[Diários do Chile: Pucón, 15 de Marzo de 2016 (dia 18 de 36)]]>Fri, 15 Mar 2019 07:00:00 GMThttp://carolinemiltersteiner.com/portuguecircs/diarios-do-chile-pucon-15-de-marzo-de-2016-dia-18-de-36
Diários do Chile:
Nessa série, republico alguns escritos da minha jornada no Chile durante meu sabático em 2016. Tem também traduzido pro inglês.
Ya estoy en la mitad de la carretera, como diz o Jorge Drexler.

Depois de 7km morro acima, muitas paradas pra recuperar o fôlego, e uma amiga corajosa o suficiente pra ir até a beira do lago por um sendero fechado e nos levar junto, uma visão que fez aquelas duas horas e meia parecerem fichinha.
Depois de 20 dias de viagem, muita dor, muita exuberância e muita vida, a visão daqui é que parece que foi fichinha.

Só eu sei o trabalho que deu. E que ainda vai dar. Mas depois vai parecer fichinha. E cada instante vai continuar valendo a pena.

No dia em que cheguei na metade, 18 de 36 dias, deixei os passeios e as paisagens de lado e resolvi (seguindo lindas sugestões) parar e assistir Wild. É forte, é extremo no esforço dela em busca de redenção e também nos motivos pelos quais ela busca essa redenção, mas foi simplesmente perfeito pro momento.

Entre outras muitas coisas, vou levar comigo nos próximos quase 20 dias, e nos próximos só Deus sabe quantos anos, o que dizia a mãe da Cheryl Strayde:

"There's always a sunrise and always a sunset and it's up to you to choose to be there.
You can put yourself in the way lf beauty."
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<![CDATA[Diários do Chile: San Pedro de Atacama, 8 y 9 de marzo de 2016 (Dias 12 e 13 de 36)]]>Sat, 09 Mar 2019 08:00:00 GMThttp://carolinemiltersteiner.com/portuguecircs/diarios-do-chile-san-pedro-de-atacama-8-y-9-de-marzo-de-2016-dias-12-e-13-de-36
Diários do Chile:
Nessa série, republico alguns escritos da minha jornada no Chile durante meu sabático em 2016. Tem também traduzido pro inglês.
Trilha sonora: High and Dry

Me despeço do Atacama. 

Um lugar que me ensinou que também existe amor à segunda vista. Que da aridez também nasce a vida. E que da monocromia também surge o colorido. Um lugar me permitiu flutuar e tentar um nado que mais parecia um ballet nas suas águas salgadas. Que me permitiu olhar pra mim mesma e gostar do que via. Que me mostrou que o céu nos confronta com o nosso passado, e que se tivermos olhos para ver (ou como me leu a Edna numa passagem linda, "enxergarmos cada descoberta como um tesouro"), as coisas mais lindas do universo se abrem diante de nós.

O Atacama me ensinou a seguir o sendero, que nada mais é do que a trilha. Que ao se desbravar algo novo deve-se ter um pouco de cuidado, se preservar, aceitar e acolher a sua própria ignorância, seus próprios medos, e também ter carinho por si mesmo. Respeitar o caminho dos que já trilharam antes e segui-lo é uma boa estratégia no começo de uma descoberta, pois te norteia. 

Falando em Norte, o Atacama me ensinou, também, a encontrar o norte e o sul durante a noite. Me mostrou os planetas, as nebulosas. Os animais que se mimetizam com as plantas pra se proteger. As imensas cordilheiras que a Terra formou, cercando a região e criando, ao mesmo tempo, sua maior sentença e sua maior redenção.

Me mostrou que quanto mais vulnerável se é, mais inclinado a perceber uma beleza indescritível se torna. Em contrapartida, mais se expõe à dor. O Chile é um dos países com maior riqueza e diversidade de paisagens, com a natureza mais exuberante e dominante. Mas proporcional à beleza está a fúria. A mesma natureza que proporciona céus, montanhas, lagos e pores-dos-sóis, também proporciona aridez, terremotos e tsunamis. 

Mas sem o terremoto, não existiria a cordilheira. Sem o tsunami, não existiria a água cristalina.

O Atacama, o Chile e a vida me ensinam que por trás das nossas melhores experiências muito provavelmente existirá, também, a dor. E não se pode evitá-la, escondê-la. É só abrindo-se para o risco que se vai adiante, é só olhando pra o precipício que se sente vivo. Quando a gente renuncia a dor, a raiva, o negativo e a sombra, também renuncia a alegria, a paz, o positivo e a luz.

Luz e escuridão são uma coisa só.

There is no dark side of the moon, really. Matter of fact, it is all dark
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<![CDATA[Diários do Chile: Space Observatory, San Pedro de Atacama, 7 de marzo de 2016 (dia 11 de 36)]]>Thu, 07 Mar 2019 08:00:00 GMThttp://carolinemiltersteiner.com/portuguecircs/diarios-do-chile-space-observatory-san-pedro-de-atacama-7-de-marzo-de-2016-dia-11-de-36
Diários do Chile:
Nessa série, republico alguns escritos da minha jornada no Chile durante meu sabático em 2016. Tem também traduzido pro inglês.
Trilha sonora:
Drops of Jupiter


Back in the atmosphere with drops of Jupiter in my hair, after making it to the Milky Way to see the lights all faded
Nem a foto, nem as palavras acima são de minha autoria (mera adaptação). 

Mas o encantamento, o apaixonamento pelo céu mais lindo e mais cheio de estrelas desse nosso mundo, o fascínio pelo astrônomo que se apaixonou por esse lugar (e aparentemente por uma chilena), deixou a França e criou aqui um mundo próprio para ele e a esposa, e juntos compartilham essa paixão com o mundo de forma tão singela e bonita, a surpresa em ver as constelações, nebulosas, os planetas e asteróides sob o mesmo limpo e brilhante céu, são todos, todos meus.

Ver as estrelas no Atacama é uma das experiências mais maravilhosas que nós enquanto meros mortais podemos ter nesse pequeno e maluco planeta.



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<![CDATA[Diários do Chile: Santiago y Pirque, 27 febrero 2016 (Dia 3 de 36)]]>Thu, 28 Feb 2019 07:43:27 GMThttp://carolinemiltersteiner.com/portuguecircs/diarios-do-chile-santiago-y-pirque-27-febrero-2016-dia-3-de-36
Diários do Chile:
Nessa série, republico alguns escritos da minha jornada no Chile durante meu sabático em 2016. Tem também traduzido pro inglês.
Palavra do dia:
Terrunyo


WOW! moment:
Ver a Cordilheira dos Andes ao fundo das parreiras da Concha y Toro


Trilha sonora
:
Here comes the sun


Lição pra vida:
"Tienes la sonrisa más grande del mundo, Caro"
Se não me falhou o espanhol e nem o guia da vinícola, "Terrayuno" significa algo como "lugar perfeito para que algo (ou alguém) possa crescer. A Concha y Toro tem uma marca de vinhos que leva este nome, em função de que no Vale del Maipo as uvas encontram um terreno muito favorável em função das condições para climáticas do Chile (tempo semi-árido, frio, sem a umidade, os insetos e as tempestades tropicais que nós, brasileiros, sofremos por sermos banhados por um oceano diferente do deles).

O Chile, e o Vale del Maipo em especial neste quesito, são tão propícios para o crescimento que a uva Carmenere, já extinta na França, foi encontrada firme e forte aqui, fazendo com que esse tipo de vinho permanecesse existindo pelas parreiras sobreviventes do Vale del Maipo. Claro, essa é a história que o guia conta, pela minha livre e imaginativa tradução e interpretação. Mas gosto da ideia, porque eu, que não sou uva, também encontro as condições perfeitas para crescer aqui no Chile.

...

Entre chilenos, colombianos, americanos e brasileiros, foi um motorista do Uber que me disse aquela frase ali em cima (do sorriso).

Como serão poucos os meus dias de cidade grande durante a viagem, usei o Uber sem culpa. Pelo conforto, mas principalmente porque cada pessoa ali no banco da frente, no volante, tem uma história de vida mais legal que a outra. Boa parte dos motoristas daqui fazem ou faziam outra coisa completamente diferente. Um trabalhava com móveis e decidiu ir para o Uber "porque me gusta manear". Simples assim. Outro, engenheiro civil, porque "me gusta la gente".

Y la plata, claro.

O que me buscou no Hard Rock, quinta-feira, é ator e trabalha como agente de viagens também pra financiar o início de carreira no teatro. E o que me levou na Concha y Toro tem uma filha da minha idade, que mora na Irlanda. Ele diz que eu e ela somos "valentes" por ir para longe sem ninguém, mas não entende por que fazemos isso e se preocupa muito com ela. Eu respondo que tem sensações que não se explicam nesse tipo de experiência, e que ele não se preocupe porque ela provavelmente deve encontrar no caminho pessoas queridas como ele, que encontrei no meu. Ele acena e agradece.

E com tantas histórias, descubro que poucos gostam de Santiago porque queriam morar num lugar menos caótico (eles não conhecem São Paulo!). Alguns gostam de misturar o vinho com frutas, e bebem a qualquer hora. Todos, sem exceção, abrem um sorriso quando digo que sou do Brasil. Os chilenos nos acham "muy buena onda". E, exceto pelos chilenos que me atendem no aeroporto, eu acho eles muy buena onda também.

E rio com as histórias deles.

Rio de qualquer coisa. Acho que a minha risada chega antes de mim nos lugares e nas pessoas.

O que eu reconheço como um enorme ativo. Mais do que o que estudei, li, fiz. Com tudo e apesar de tudo, eu rio. Pra mim e pro mundo. Até quando dói, quando caio ou quando fica difícil. E isso é totalmente involuntário. Cheguei à conclusão de que essa minha facilidade de rir é a minha alma me lembrando sempre que, não importa o que aconteça, tudo ficará bem. O problema começa a se resolver de dentro pra fora, o amor floresce muito mais fácil. A gente olha pras coisas com maior empatia, maior entusiasmo e mais delicadeza. E o mais bonito disso é que contagia as pessoas.

Se eu pudesse escolher uma profissão maluca seria "sorridora de ambientes". Alguém que chega, sorri e com isso praticamente obriga quem quer que seja, nem que por reação de espelho, a se desarmar e sorrir também.

Então, se você foi persistente e gentil comigo o suficiente pra chegar até aqui, me imagine sorrindo agora pra você agora. E sorria de volta, pra mim, nem que seja pela "tontería" dessa proposta. Sorria pra quem está do seu lado, pro céu. Especialmente pra você mesmo.

E façamos de qualquer lugar o lugar perfeito para que a gente possa crescer e persistir.
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<![CDATA[Diários do Chile: Santiago, 26 febrero 2016 (Dia 2 de 36)]]>Thu, 28 Feb 2019 07:37:22 GMThttp://carolinemiltersteiner.com/portuguecircs/diarios-do-chile-santiago-26-febrero-2016-dia-2-de-36
Diários do Chile:
Nessa série, republico alguns escritos da minha jornada no Chile durante meu sabático em 2016. Tem também traduzido pro inglês.
Palavra do dia:
flâneur


​WOW! moment:

Solo de Comfortably Numb pela banda Traffic & Rock em frente à Universidad de Chile

Lição pra vida:
Escutar, respeitar e seguir o coração.
Ele sabe muito bem aonde está indo.
Dia de muitas, muitas palavras. Reflexões. Epifanias. Muitas pra um dia só e logo de cara, assim.

Dia de deixar no fundo da gaveta a bússola, o GPS e o app que faria uma recomendação super inteligente para o meu roteiro. Meu objetivo não é fazer o trajeto que todo mundo que vem a Santiago precisa fazer. Sem desmerecer isso, é ótimo e ajuda a priorizar e organizar a diversão. Organizar a diversão? Hoje, pra mim, não.

O flâneur é aquele indivíduo que simplesmente passa, flui pela cidade. Surgiu no século XIX (e mais que isso não me atrevo a explicar) como a imagem de alguém que, mais do que as estruturas e obrigações urbanas que já começavam a se impor, queria tão somente "ser". Desfrutar. Andar sem rumo ou trajetória, tendo cada paisagem como uma experiência nova a ser desfrutada sem necessariamente gerar algum resultado prático.

Pode parecer singelo sair sem mapa em uma cidade como Santiago, especialmente quando se está no centro. Mas pra mim, não. O exercício do "let go", do se deixar sentir e entrar no fluxo, precisa ser tão constante como meus 20 minutos diários de yoga (e uma coisa favorece a outra).

E essa autolibertação me é uma coisa muito importante. Muito. É mais importante que eu consiga me autorizar a passar quatro horas no terraço do hostel escrevendo e externando tudo o que se passa aqui dentro, enquanto a cidade permanece ali, aguardando o meu tempo, do que que eu colecione pontos visitados.

Já escrevi um bocado de linhas sobre o meu primeiro dia de viagem, e nenhuma delas menciona onde estive.

And that's the dream.

Vale dizer que isso tudo me levou a caminhar por algumas horas no centro de Santiago. Me levou a olhar pras pessoas e ouvir os sons e sentir os cheiros de forma diferente, porque quando não se sabe onde se está indo qualquer caminho serve, mas também cada pedaço do caminho se torna o próprio destino e a gente não fica esperando pra aproveitar lá no final.

Tem dois momentos dessa experiência, desse primeiro dia, que ficaram muito fortes na minha lembrança. O primeiro é que, em algum momento, quis definir um destino pro meu flanar. Lembrava que o Palacio de la Moneda era um lugar bastante imponente, com um enorme jardim e uma enorme bandeira do Chile. Uma ausência de prédios em um espaço razoável. Me propus a chegar lá sem ter a menor ideia de onde era (exceto de que não era muito longe de onde estava). Não sabia o endereço, e mesmo se soubesse não teria o mapa. Não perguntei a ninguém. Me deixei levar. E quando vi, estava lá. No que pra mim foi a metáfora perfeita de que quando a gente se escuta, segue o que sente de forma prudente e tranquila, o caminho surge e o destino aparece muito mais fácil do que se imagina. E mesmo que o destino não fosse exatamente o que eu esperava, o andar me colocou em fluxo, que é quando a gente entra tanto no que está fazendo, porque gosta tanto daquilo, que não vê o tempo passar, não se cansa e chega nas profundezas do que quer que nos propusermos a fazer.

E quando vi uma baita banda tocando Pink Floyd assim, no meio da rua, pra 20 pessoas como se estivesse em um estádio, entendi. Que não importa o que tem fora. Se é um jardim, dez pessoas, uma pessoa. Se dentro a gente olha com olhos grandiosos, curiosos e amorosos, até um solo de guitarra na calçada se torna o momento mais incrível da nossa vida.

O que significa que, ou os dias serão todos incrivelmente maravilhosos, perfeitos e inesquecíveis como ontem, ou devo ter consciência de que virão dias menos ensolarados como este. E tudo certo.

O que importa é buscar isso, até porque, por óbvio que pareça, o buscar facilita razoavelmente o encontrar. E a busca, por si só, já vale toda uma vida.
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<![CDATA[Sem corte seco]]>Mon, 21 May 2018 16:57:06 GMThttp://carolinemiltersteiner.com/portuguecircs/sem-corte-secoQuando foi a última vez que você ficou esperando o computador ligar? Que você ficou sentado ali, olhando por minutos, enquanto ele iniciava o sistema operacional. Você parte de uma tarefa para outra em um instante? O quanto você está presente?

Já notou a diferença entre assistir a um filme no cinema e em casa? Como você fica imerso no filme e parece entender melhor dele? O motivo disso é simples, e vai além do (óbvio) som infinitamente melhor e da tela gigante. Tem a ver com o caminho que você percorreu até sentar naquela poltrona, olhando somente para a tela. Tem a ver com o estado entre o que você estava fazendo antes, e o quanto você é levado a tornar-se presente.

Há alguns anos, eu li um artigo em algum lugar da internet sobre as transições que ocorrem na nossa vida, e o papel delas em transportar a nossa mente de uma coisa para outra. Apesar de ter procurado pra caramba, nunca mais encontrei o tal do artigo. Mas eu  lembro de aprender que as nossas experiências podem direcionadas por essas transições, entre um estado e o seguinte. Entre aqui e lá. Esses momentos, embora a gente nunca note, são extremamente úteis e podem ser decisivos em como levamos as nossas vidas.

A gente subestima a transição.

Pensa numa coisa: quando você assiste a um filme no cinema, depois de toda o trabalho que você teve até chegar lá, o que acontece primeiro? As luzes e as músicas vão baixando, bem devagar. Depois disso vem os anúncios, e depois os trailers, e a abertura do filme. E é só depois de tudo isso que a gente assiste ao filme de fato.Quando ele termina, você não levanta sai correndo da sala, nem se teletransporta pra casa. Você ficar sentado e assistir aos questionáveis créditos finais, enquanto a luz vai reacendendo lentamente.

Você lembra de algum filme que te tocou tão profundamente que te fez ficar olhando a tela por um tempo, antes conseguir levantar e sair?

O que acontece é que essas transições te tornam presente. Elas voltam toda a sua atenção para onde ela precisa estar. Te dão o tempo que você precisa para mudar entre o estava acontecendo antes e o aqui e agora. E no fim, dá tempo para você se recuperar antes de voltar para "vida real".

Corta para vida real, cheia de coisa pra fazer e constantemente conectada.

Os nossos dispositivos são cada vez mais rápidos e ininterruptos: você não precisa esperar o celular ligar toda vez que quiser usá-lo. Você não precisa pegar uma agenda telefônica para procurar o número de alguém antes ligar.

A gente tenta acabar as transições querendo tornar a vida rápida. E a gente está errado por querer fazer isso. Queremos reproduzir um filme à luz do dia e que ele apareça na TV 30 segundos depois de chegar do trabalho. Queremos que nossos emails ou mensagens cheguem na hora. Queremos receber a resposta na mesma hora.

Você fica na mesa depois de terminar de comer? Ou, você come em uma mesa de verdade, sem fazer nada além de comer além de talvez conversar?

Para agora pra pensar no espaço entre a última coisa que você fez e neste exato momento. Provavelmente, é algo assim: fiz isso, fiz aquilo, fiz aquilo outro. Nossas experiências de vida, seja no trabalho, estudo, viagens, relacionamentos, estão nos levando a aniquilar, ou pelo menos ignorar constantemente, esses momentos de transição.

Eu te convido a refletir sobre as experiências que teve no passado, ou até recentemente, onde você consiga perceber uma transição entre o estar aqui e ali.

Por exemplo, quando tenho um compromisso, gosto de chegar pelo menos 20 minutos mais cedo. Eu nunca tinha entendido o porquê (até agora), mas o que começou por uma questão de pontualidade acabou virando um momento valioso em que eu desloco a minha atenção pro que eu tenho diante de mim. Como resultado, sempre me sinto muito mais presente. E esses 20 minutos extras são muitas vezes a melhor parte do meu dia.

Quando foi a última vez que você foi pro trabalho sem tentar distrair-se do fato de que você estava indo pro trabalho? A última vez que você só prestou atenção naquele momento entre sair de casa e sentar na sua mesa?

Estamos em um contínuo ininterrupto de ação, reação e distração. Aprendemos a achar que a nossa vida deve ser uma sucessão de itens a riscar e uma gincana onde você termina uma coisa e sai atrás de outra imediatamente.

Chega disso.
Chega, dá um tempo nisso.

Não tenta remover ou adiar as transições que fazem parte do teu dia. Pode ser mais produtivo ouvir um podcast ou um livro no trajeto pro trabalho. Mas só uma vez, tente apenas estar presente naquele trajeto. Se você leva 40 minutos para chegar no trabalho, dedique 40 minutos à sua mente para se adaptar do modo de casa/descanso ao modo trabalho.

A beleza da transição está nas pequenas coisas: a espera pela água no chuveiro aquecer antes de entrarmos no banho, o fim de uma música e o começo de outra. Os minutos antes do garçom trazer o seu pedido. O intervalo de 15 minutos antes da sua próxima reunião. As horas antes do show da sua banda preferida.

Não tente preencher isso com outras coisas.

Porque se você prestar atenção, a magia da transição também está nas coisas grandiosas, e a natureza nos mostra isso todo santo dia. É só prestar atenção.

Observe o nascer do sol e o pôr do sol. Sinta o dia começando e terminando. Olhe as flores desabrochando, note como a sua rua muda quando chega o verão, inverno, primavera ou outono.  Observe quanto tempo demora para que as árvores sequem depois da chuva. Toda forma de vida, incluindo a nossa, está em constante transição.

Tudo está em transição, por que não aproveitar?

Às vezes pode parecer que a sua vida tem sido um monte de eventos consecutivos, mas pense bem. Foi mesmo? Ou você simplesmente não estava prestando atenção?

Você nunca passou um dia sequer entre empregos, entre projetos, entre cursos, entre relacionamentos? E será que você aproveitou aquele momento ou estava apenas desejando a próxima coisa?

Ficamos ansiosos pelo próximo passo. Subestimamos o poder desses momentos de transição em tornar-nos muito mais preparados para o que está por vir. E especialmente, mais presentes para isso.

Não é um corte bruto. É uma sequência de transições suaves.

Há três anos, decidi tirar um ano (e meio) sabático.

A pergunta que mais me fizeram (depois de, “como assim?!”) foi, “o que você vai fazer depois?”. Todas as vezes, a minha resposta foi, “eu não tenho ideia, e achando isso maravilhoso”.

Era verdade. De alguma forma, eu sabia que estava me preparando para outras coisas, outras situações, mas não tinha ideia do que podia ser. Ainda bem que me permiti dizer “não sei” para a pergunta mais importante da minha vida naquele momento. E eu tinha consciência o suficiente para saber que aquela passagem era necessária, que eu não podia pular de um galho pro outro. Que não seria sensato, não funcionaria e com certeza não teria a menor graça.

Quando me permiti entrar em estado de transição e até me divertir com aquilo, foi quando eu cheguei aos lugares, situações e pessoas que eu jamais poderia ter imaginado.

E eis que eu me vejo em transição, de novo.

Eu não cheguei lá ainda, então não me pergunte para onde estou indo porque eu não sei. Cada vez que consigo superar a ansiedade de adivinhar o destino, eu aproveito muito mais o caminho. Estou me permitindo navegar em qualquer direção que faça sentido.

Você não vê muitas pessoas falando enquanto estão atravessando esse lugar de transição. A gente normalmente vê quem já chegou do outro lado, já encontrou o que estava procurando - ou faz a gente acreditar que encontrou.

E quando essa transição não envolve a viagem da sua vida? Aqui, da minha escrivaninha cinza, eu te digo que pode ser terrivelmente chato às vezes, e assustador o resto do tempo.

E tudo bem, porque eu sei que a tal da luz vai brilhar depois do túnel, assim que eu chegar lá. E que depois dessa luz vem outro túnel, e outra luz, e outro túnel, até o fim. Eu sei que agora é hora de sentar, esquecer o que veio antes e voltar a minha atenção para o filme que já está engatilhado pra começar a qualquer momento. Porque é assim a vida. Para todo mundo.

E enquanto isso, posso ficar bem sentada na poltrona comendo uma pipoca.

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<![CDATA[Você tem medo é de você]]>Fri, 18 May 2018 07:00:00 GMThttp://carolinemiltersteiner.com/portuguecircs/voce-tem-medo-e-de-voceMais e menos a essa altura ano passado, eu escrevia um texto contando parte da minha vida pra ser publicado na edição de domingo da Zero Hora. A Zero faz parte de um grupo de comunicação considerável no sul do Brasil (não quero entrar em méritos de “maior”, “principal”).

Eu demorei mais de um mês pra decidir escrever, e mais tempo ainda pra decidir publicar. O principal motivo era, obviamente, o medo da exposição. Por mais que a publicação, e especialmente o meu texto, não tenham chegado a milhões ou milhares de pessoas, ainda assim eu tornaria relativamente público algo até então bastante privado.

Mas o maior medo não era só da reação de pessoas aleatórias. Também tinha o medo do ex-colega de trabalho, do ex-namorado, do parente distante, do amigo que eu nunca mais vi.

E esse é o medo mais imbecil que existe.

E também um dos mais comuns.

Porque é um medo direcionado a pessoas que não importam. Que não fazem parte da minha vida, que eu sequer sei onde estão e o que fazem. Eu projeto nessas pessoas, aproveitando o fato de que muitas delas são insuportavelmente julgadoras, o meu próprio julgamento interno. Eu coloco as palavras mais feias que eu digo pra mim mesma na boca dessas pessoas, e me deixo consumir pelo xingamento, pelo desprezo e pela decepção.

E isso é a coisa mais imbecil que existe.

Quando o texto foi finalmente publicado, eu não tive um “ai” dessas pessoas. E adivinhe por quê: porque cada uma está preocupada em viver a sua própria vida e está cagando pro que eu faço da minha. Com algumas nuances, é claro, mas em suma é isso.

O que aconteceu foi o oposto, e foi infinitamente melhor do que eu esperava: nas primeiras horas da manhã de domingo no Brasil, já tinha gente que eu nunca vi na minha vida me agradecendo. Dizendo que estava passando por um momento difícil, que me ler tinha acendido algumas luzes. Recebi mensagem da família parabenizando e fazendo aquele carnaval que vocês podem imaginar. Meses depois, ainda recebi alguns emails de mulheres me perguntando como eu tinha feito o que eu tinha feito.

Hoje mais cedo, quase um ano depois da matéria ter ido para o portal, eu acessei a página novamente, e li os comentários que foram feitos semanas depois e eu nunca tinha visto.

Entendi o conselho de muita gente que produz conteúdo “jamais leia os comentários”. Apesar de ter entendido, discordei um pouco. Quem já escreveu e publicou algo bastante pessoal talvez me entenda: o que me deu foi um alívio.

A maior parte dos comentários discordavam categoricamente da utilidade do que eu havia escrito, dizendo que o veículo prestava um desserviço ao publicar a história de alguém que claramente tinha dinheiro da família pra fazer o que fez. Teve comentário direcionado ao coaching, à meditação, ao trabalho, às minhas escolhas amorosas, e opiniões fortes quanto aos mínimos detalhes do que estava ali exposto.

O meu comentário preferido foi de um sujeito que disse, em síntese, que a minha história era patética mas que eu escrevia bem e deveria fazer roteiro de cinema. Gostei da ideia, prezado leitor.

Disso tudo, ficam dois aprendizados imensos: o primeiro é que alguma parte da internet vai te apedrejar mesmo e não importa, NÃO IMPORTA o que você faça. O segundo é que, assim que entrei em contato com os meus medos, e li de outras pessoas o que eu certamente já disse pra mim mesma mais de mil vezes, eu percebi de verdade o quanto aquilo tudo era besta.

Porque vai ter gente dizendo que o que eu faço é uma bosta, que é desnecessário. Que eu deveria estar dedicando o meu tempo a outra coisa. Que as pessoas não deveriam prestar atenção no que eu digo e escrevo.

E tudo bem.

Eu só posso fazer o que eu posso fazer. E o que eu quero fazer. O resto é opinião alheia, e todo mundo tem direito a uma, por mais desafiador que isso venha sendo ultimamente.

Agora que os demônios saíram do armário, que comecem os jogos.

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